Canal de denúncias não substitui a gestão de riscos psicossociais
No sábado, 1º de agosto de 2026, um trabalhador terceirizado da empresa TPC matou três colegas, também terceirizados, dentro da fábrica da Bombril em São Bernardo do Campo (SP). Segundo a imprensa, ele estava de folga e foi até a unidade. Preso, morreu horas depois sob custódia, e o caso segue sob investigação da polícia. Testemunhas ouvidas pela polícia afirmaram que o autor seria alvo de bullying por parte de duas das vítimas, versão que ainda precisa ser confirmada.
Esta análise não trata de culpa individual. Ela parte da repercussão do caso para discutir um erro conceitual frequente: confundir o canal de denúncias com a gestão de riscos.
O que a empresa disse sobre o canal
Em nota, a Bombril informou que mantém um canal de ética, amplamente divulgado, por meio do qual funcionários próprios e terceirizados podem denunciar bullying e assédio, que todos os registros são analisados, e que não havia denúncias contra os envolvidos. A empresa citou ainda o setor de acolhimento, com atendimento psicológico e médico, e treinamentos. A TPC também informou ter canal independente e área de conformidade.
A ênfase na ausência de denúncias induz uma leitura: a de que, sem relato formal, nada poderia ter sido feito. É justamente essa leitura que a gestão de riscos psicossociais contesta, porque o dever de perceber o problema não depende de alguém ter denunciado.
O canal é instrumento, não gestão
Um canal de denúncias, ouvidoria ou linha ética é um instrumento. Ele recebe relatos, encaminha e trata. Mas não observa o clima organizacional, não percebe o colega isolado no chão de fábrica e não identifica a queda de produtividade de quem é humilhado com frequência. Quem previne é a liderança direta, o RH, o SESMT, a segurança do trabalho e a alta administração, por meio de políticas efetivas contra o assédio e de gestão de riscos psicossociais.
E de nada adianta ter a ferramenta se os usuários potenciais não confiam nela, ou nem sabem usá-la.
A NR-1 e os riscos psicossociais
Desde 26 de maio de 2026, está em vigor a atualização da NR-1 que inclui os fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO/PGR). Esses fatores dizem respeito à organização do trabalho, às relações internas e ao ambiente laboral, e a empresa precisa identificá-los e controlá-los sem esperar que alguém denuncie.
Terceirizar a operação não é terceirizar a responsabilidade
Um caso anterior mostra o mesmo padrão. Em novembro de 2020, João Alberto Silveira Freitas foi morto por seguranças terceirizados em uma loja do Carrefour em Porto Alegre. Em 2021, a rede assinou um Termo de Ajustamento de Conduta de R$ 115 milhões com o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, o Ministério Público do Trabalho e outros órgãos, com compromissos que incluíram a atualização do Código de Ética e Conduta. Antes disso, o grupo anunciou a internalização gradual dos serviços de segurança.
Em ambos os casos, a violência foi praticada por terceirizados dentro de instalações de uma grande empresa. Quando isso acontece, as responsabilidades civil, trabalhista e reputacional da contratante não desaparecem por causa de um contrato de prestação de serviços.
Perguntas que nenhum canal responde
- Controle de acesso: como se controla a entrada de colaboradores terceirizados fora do horário de trabalho?
- Revista e objetos perigosos: existe controle efetivo na portaria?
- Gestão de terceiros: qual o nível de integração entre a gestão de pessoas da contratante e da contratada na prevenção de conflitos?
- Riscos psicossociais: há mapeamento desses riscos na operação terceirizada dentro da planta?
- Sinais prévios: lideranças, RH ou colegas perceberam algo antes? Houve algum relato, formal ou informal?
Essas perguntas dizem respeito a segurança patrimonial, gestão de terceiros e clima organizacional: três pilares que antecedem qualquer ferramenta de ouvidoria.
Conclusão
Prevenir ambientes tóxicos é tarefa de pessoas: líderes, gestores, RH, segurança corporativa e compliance, atuando juntos. Um canal de denúncias é uma peça importante desse sistema, mas não substitui a gestão. Empresas que o tratam como escudo discursivo, e não como parte de um sistema mais amplo, ficam expostas.
A Ouvidoria Ética oferece o canal de denúncias com apuração e a consultoria em compliance e NR-1. Leia também conflitos no trabalho e gestão de riscos e prevenção.
Aureo Vieira é advogado, doutorando em Direito e coronel da reserva do Exército.